Em 2025, completa 200 anos do nascimento de um escritor completamente desconhecido na história literária brasileira, mas não menos importante, mesmo figurando como coadjuvante na geração dos escritores do romantismo. Estamos falando do romancista sergipano Constantino José Gomes de Souza.
Nascido no dia 18 de setembro de 1825 em Estância, à época, uma pequena e ascendente povoação de Sergipe, Constantino fez seus estudos iniciais na região natalícia e completou eles na Bahia, onde deu início a formação em Medicina. Esta formação termina no Rio de Janeiro, província onde fixou residência e que clinicou por longos 26 anos. Por um período, foi afortunado na atividade médica e dividiu seu tempo entre o exercício da medicina e a literatura. Na Corte, entre os espaços das tipografias, dos teatros, no Conservatório Dramático e mesmo na Sociedade Petalógica (ponto de reuniões literárias, conversas e trocas de informações), Constantino conheceu e conviveu com José de Alencar (1829-1877), Machado de Assis (1839-1908), Joaquim Manuel de Macedo (1820-1882), Laurindo Rabelo (1826-1864), João Caetano dos Santos (1808-1863), Francisco de Paula Brito (1809-1861), entre outros. Alguns destes contemporâneos, além de Araújo Porto Alegre (1806-1879), Sílvio Romero (1851-1914) e Mello Morais Filho (1844-1919), fizeram elogios por escrito sobre Constantino e sua obra.
Joaquim Manuel de Macedo escreveu curioso verbete biográfico no Suplemento do Ano Biográfico, de 1880, onde descreve o sergipano como um “homem honesto, (...) bom, caridoso (...), médico ilustrado, clínico hábil e feliz”, além de um “literato que pudera ter tomado lugar de honra entre os escritores do seu tempo”. (1)
Quando Constantino Gomes dirigia o semanário literário A Grinalda, na tipografia de Paula Brito, Machado de Assis, em crônica de novembro de 1861, destaca as aptidões de Constantino que já se achavam “reconhecidas pelo público”. (2) Nessa tipografia, Constantino publicou o poético Os Hinos da Minha Alma; os dramas O Enjeitado e Os Três Companheiros de Infância; e colabora na revista A Marmota na Corte.
O crítico Sílvio Romero via o poeta como um homem de aspecto “muito grave e muito severo, de um gênio arrebatado” que “jamais entreteve relações com os escritores do seu tempo”, mas tinha-o em alta conta, em relação às qualidades literárias. Ele colocou Constantino em lugar cativo nas fases da sua História da Literatura, e com certo exagero, figurou o conterrâneo na “galeria dos melhores poetas nacionais”. (3)
Sobre a obra literária de Constantino Gomes de Souza, costuma-se dividir por gêneros literários, basicamente em três partes: uma lírica, uma dramática e, por fim, uma narrativa. A primeira, entre 1845 a 1851, se dedica aos versos esparsos nos jornais e na publicação de dois livros: Prelúdios Poéticos, de 1848; e Os Hinos de Minha Alma, de 1851. A segunda é devotada principalmente, mas não exclusiva, ao drama. São dez peças escritas ao todo, cada uma contando entre três a quatro atos e encenadas nos teatros do Rio, destacando-se: O Espectro da Floresta (1854); A filha do Salineiro (1858); O enjeitado (1860) e Os Três Companheiros de Infância (1861). (4) A terceira fase, entre os anos de 1871 a 1877 – justamente no período em que tanto o folhetim como também o movimento romântico já entrava em declínio –, ele publicou cinco romances (em livro e edição seriada), sendo estes: O Desengano (1871), A filha sem mãe (1873), O Grumete (1873/1874), Arycurana (1874/1875) e O Cego (1877/1878).
Esta última fase, a mais significativa na escrita de Constantino e ainda carregada por valores morais e ideológicos da sociedade brasileira dos oitocentos, deu um relativo reconhecimento ao sergipano nos jornais e círculos literários de sua época. O Desengano, ambientado na Estância, narrava a trajetória de um médico, filho de negociante português, que durante sua juventude, devassa e libertina, comete um bárbaro crime e anos após, apaixona-se por uma jovem, filha da sua suposta vítima. Parte da trama acontece no período da epidemia da Cólera, que assolava grande parte do país nos meados do século XIX.
O romance seguinte, A filha sem mãe, tinha a escravidão por tema. Segundo um anúncio, o romance representava “alguns quadros ou melhor, cenas tristíssimas da escravidão” (5). Nota-se nele, assim como em outros de mesma temática do momento histórico-literário, uma preocupação voltada à escravidão, não exatamente como denúncia social, mas enquanto gerador de conflitos entre as classes da sociedade escravocrata da época. A filha sem mãe aparece dois anos após a lei do Ventre Livre e é provável que sofreu alguma influência das características pré-naturalistas de As Vítimas Algozes (1869), de Joaquim Manuel de Macedo.
Ambientado em diversos lugares do Brasil e mundo, o folhetim O Grumete, foi publicado na revista Semana Ilustrada e contava a história de um menino travesso e impetuoso, de descendência inglesa, que ao aprontar uma travessura violenta na sua irmã, é enviado pelo pai, como forma de punição, para bordo da fragata Constituição, navio de guerra da Armada Imperial brasileira. Narrado em terceira pessoa, era um misto de romance urbano e marítimo, possuindo influência de narrativas marítimas estrangeiras.
Alguns meses após o término de O Grumete, o indianista Arycurana aparece na Semana. Esse folhetim acompanhava a história de uma indígena tupinambá, disputada amorosamente por dois jovens guerreiros, filhos de caciques rivais. Tem como principal pano de fundo a invasão do território sergipano por tropas portuguesas comandadas por Cristóvão de Barros, em 1590. (6)
O Cego, último folhetim, publicado a partir de julho de 1877 no periódico Ilustração Brasileira, contava a trajetória de dois irmãos do Mato Grosso que irão para o Rio de Janeiro, com motivações diferentes: um, para enriquecer no comércio, o outro, reaver um dinheiro roubado por um judeu. Esse romance ficou incompleto após o término brusco da revista Ilustração Brasileira. Afirma a pesquisadora Sílvia Azevedo , que a interrupção “deve ter sido duplamente frustrante para o leitor: em primeiro lugar, porque ficava sem saber como a história terminava; depois, porque havia confiado na promessa dos editores de continuar com a publicação de O cego até o final, mesmo depois da notícia do falecimento de Constantino (...) o que fazia supor o romance já estivesse concluído”. (7)
Nos seus anos finais, o romancista viveu na mais completa pobreza material. Desde O Grumete aparecia sinais de debilidade física e de saúde, advindas da miséria que já se encontrava. (8) Segundo Macedo, “as letras não lhe deram pão, não dão a literato algum no Brasil. (...) Seus últimos meses de vida passaram-se em privações e tormentos até que descansou”. (9) Somados a isso, a boêmia e as apostas em jogo, levou ao vício e a completa ruína. Constantino José Gomes de Souza faleceu de congestão pulmonar, no dia 02 de setembro de 1877. Foi sepultado no cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro.